Apesar de cientes desse despertar da sociedade civil, os dirigentes comunistas se revelam totalmente determinados por seus interesses materiais: o poder rende demais para que eles o exerçam com reserva ou impeçam suas famílias de dividirem lucros imobiliários e industriais. Pior, o partido está enrijecendo, e o governo se torna arrogante. Hu Jia e Liu Xiaobo não estavam na prisão antes dos Jogos Olímpicos de 2008: eles foram presos depois, uma vez que a festa terminou, o boicote foi evitado, e o Ocidente se manteve manifestamente indiferente aos direitos humanos.
Da mesma forma, desde que foi admitida na Organização Mundial do Comércio (em 2001), a China respeita cada vez menos suas regras, prende executivos estrangeiros, viola as normas jurídicas internacionais (desrespeito à propriedade industrial, protecionismo, desprezo da concorrência nas licitações). Desde que ela se reconheceu como grande potência, o que em si é legítimo, a China não participa da harmonia mundial, mas desestabiliza a Ásia, ao manipular sua marionete norte-coreana.
O partido ainda é comunista?, pergunta-se no Ocidente. Alguns falam em um capitalismo de Estado, estranho oximoro. Liu Xia, que conhece o regime por dentro, acredita que o fascismo é uma referência mais apropriada: partido único, desprezo pela cultura, aliança do Estado e do capital. “Nós, os democratas”, diz Liu Xia, “somos como os judeus na Alemanha nazista. Somos exterminados na indiferença geral dos ocidentais. Vocês só acordarão quando tivermos desaparecido”.
É preciso ouvir Liu Xia e lidar com o regime chinês da mesma forma que se fazia com a União Soviética. Nós não confundíamos o povo russo com o Partido Comunista soviético; fazíamos comércio com a URSS porque era lucrativo para os povos; apoiávamos os dissidentes soviéticos porque eles encarnavam a continuidade da alma russa e o futuro da Rússia. Da mesma maneira, temos de saber que o povo chinês não se confunde com o PC Chinês, continuar com o comércio que desperta a sociedade civil chinesa, e reconhecer que Liu Xiaobo, Hu Jia e Wei Jingsheng são a honra e a dignidade da China. Seu futuro, talvez?
Sejamos humildes: a história da China não obedece a nenhuma necessidade e certamente não à vontade do Ocidente. É possível que a China esteja progredindo em seu ritmo, segundo leis que nos são estranhas. Dissidente vigiado mas em liberdade, o eminente economista Mao Yushi me diz ter calculado em 50 milhões o número de vítimas diretas do PC Chinês, da Revolução de 1949 às Reformas de 1979: guerra civil, execuções, fome organizada.
Desde 1979, primeiro ano das reformas, Mao Yushi contabiliza em 200 mil, em trinta anos, o número de vítimas do regime: execuções, repressões, mortes na prisão. Os dirigentes depostos se aposentam, não são mais assassinados. A isso se somam os benefícios incontestáveis de um crescimento que prolonga a expectativa de vida. Devemos admitir então, com Mao Yushi, o que quer que nos custe esse cálculo macabro, que a China está “progredindo”. Mais um esforço, estaríamos tentados a dizer! Nós, como estrangeiros à China, devemos dizer isso? É nossa responsabilidade? É necessário? Mas Liu Xia espera isso de nós; Mao Yushi e Zeng Jingya, esposa de Hu Jia, nos suplicam.
As petições do Ocidente, diz Mao Yushi, são essenciais para o progresso da China. Desde o momento em que eles o pedem, nós no Ocidente não temos nenhum direito de nos calar. É nosso dever denunciar os carcereiros de Liu Xiaobo e de Hu Jia: aquele que sabe e guarda silêncio é um covarde.
*Guy Sorman é ensaísta. Autor de inúmeras obras, ele desenvolve uma defesa dos direitos humanos baseada em um pensamento político liberal. Publicou recentemente “Wonderful World. Chronique de la mondialisation” (Ed. Fayard, 2009).
Tradução: Lana Lim
RESPOSTA
07/07/2010 - 00h35
Jin Chunlei*
Menino caminha no piso molhado de um fonte no coração financeiro de Pequim, China
Como leitor diário do “Le Monde”, que considero um jornal de referência, qual não foi minha surpresa ao ler um artigo intitulado “Eu acuso o regime chinês”, assinado por Guy Sorman, que incluía um questionamento extremamente parcial e grosseiro de meu país, com argumentos infundados.
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